terça-feira, 26 de junho de 2012

Reflexos de Uma Lente Opaca - Parte 1

O Arco-íris Tem Sete Cores
Por Heder Leite

         Jaime trabalha na rua, debaixo de sol ou de chuva; sente o cheiro das escórias, do absinto camuflado de gravatas, da baunilha derretida das crianças, do chocolate ressecado dos adolescentes, da impura fumaça opiácea, piscodélica, que adentra suas narinas sem pedir, que sai quando quer, e volta sem ser chamada. Seu alívio vem em dia de chuva, trazendo consigo o seco e suave odor de areia, capaz de levar por algum tempo o odor pútrido das entranhas de outrem. As ruínas das velhas casas revelam um passado abandonado. O piso descontínuo combina com os muros incompletos. Os transeuntes apressados opõem-se aos vagabundos solitários. A barraca de Jaime descansa bem na metade da rua; um ponto invejável.
         Havia uns dez anos que Jaime chegou naquela rua. Abandonado no início da idade adulta por loucura, fugiu do Hospital Psiquiátrico e perambula pelas ruas desde então. Conhece bem os viadutos, os perigos do acolhimento indevido, o clima interno das delegacias, o sabor das prostitutas e a dor dos hematomas merecidos. A Emergência dos hospitais conheciam bem o sujeito; já gastou nas salas de corte e costura alguns fios de nylon, reparando cortes na face, no dorso, nas pernas. Numa última visita à emergência do Souza Aguiar, chegou desacordado, levado pelos bombeiros militares de serviço na Presidente Vargas. Permaneceu nos corredores do hospital por algumas semanas, cuidado por um grupo de estudantes de medicina, ávidos pelo sentimento de salvar vidas, programando procedimentos, prescrevendo sua sorte e negociando com os staffs as novas condutas. Apesar de tudo, sobreviveu às condutas dos jovens doutores. Acordou numa cadeira fria de metal, amarrado com uma faixa de crepon, sentindo um ardor em seu braço esquerdo, de onde uma fina mangueira plástica preenchida de soro lhe hidratava. Algumas pessoas passavam à sua frente, sem ao menos lhe oferecer um “bom dia” ou “em que posso ajudar?”. Jaime estava fraco, uma ferida em seu dorso lhe ardia a alma. Fraco também estava o nó do crepon que se desfez sem trabalho. Jaime saiu pela porta da frente do hospital, cumprimentou o guarda e voltou ao seu lar.
         Perambulou por alguns dias pelas ruas do Centro, sem saber aonde ir. Tomava banho com a chuva de verão, secava-se com os jornais lidos. Jaime não sabia onde estava, o que havia acontecido. Procurou por alguma daquelas enfermeiras do Hospital Psiquiátrico, de que sentia saudades naquele momento. Foi guiado pelo destino à sua rua final, sem metrô ou viatura, com os dedos caleijados e a ferida cicatrizada. Seu olhar, porém, não era o mesmo. As cores eram turvas, os reflexos dolorosos. Não diferenciava os bandidos dos executivos quando lhe cuspiam à face. Não discernia as senhoras que lhe dava o resto do almoço das prostitutas que lamentavam sua condição atual. O destino sugeriu-lhe bem o seu endereço final.
         Jaime mora na Rua dos Inválidos.
         Jaime estava cego.

5 comentários:

  1. Oi Heder
    Você sabe, eu sempre acompanhei suas escritas e gosto delas.
    Também Gostei que você tem um blog só para elas.
    Fica mais fácil, parece que estou num cantinho de leitura.
    Seja bem vindo!

    zizi

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  2. Adorei a leitura, estarei sempre por aqui... uma abraço.

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  3. Boa noite Helder!
    Fiquei feliz em saber que agora tem seu blog individual para postar seus textos.
    Já sou seguidora e estarei sempre por aqui.
    Tenha uma semana feliz e abençoada.
    Abraços da Bia!!!
    http://pequenosgrandespensantes.blogspot.com.br/

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  4. Vim pela Zizi e descubro lindo texto aqui. Vou acompanhar sempre que der os demais capítulos. A provinha nesse 1º está ótima. Pouco a pouco me inteiro! abraço,chica

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